Severino Celestino da Silva

A concepção de céus e inferno na Bíblia, passa por uma série de considerações. As citações e as descrições em torno do assunto variam muito. Em virtude disto, existe dificuldade, quando buscamos uma descrição unânime destes conceitos através da história. São muitas as observações e opiniões encontradas e desencontradas entre os estudiosos.

As visões, tanto dos pesquisadores orientais, como dos ocidentais, se apresentam sempre cheia de controversas. Não existe um consenso a respeito desta concepção. O judaísmo e as religiões cristãs não são convergentes nestes dois pontos. Por isso, os conceitos necessitam de uma busca mais profunda em seus conteúdos. Ao aprofundarmos um pouco mais as nossas pesquisas e, penetrando nos conceitos mais antigos, descobrimos muitas variações de opiniões. Analisaremos os achados na literatura existente e buscaremos adequá-los aos conceitos bíblicos e a realidade do que aconteceu através da história e do que existe no presente.

Apresentaremos, inicialmente, a nível de esclarecimento, os conceitos em torno dos termos bíblicos Ruách, (espírito) neshamá (alma), nefesh chaiá (alma vivente), Shamaim (céus) e guehinom ou Sheol (inferno), nas raízes do idioma hebraico. Buscaremos, assim, esclarecer e melhorar estes significados básicos aprofundando seus conteúdos. Não temos, é claro, a pretensão de esgotar o assunto, nem tão pouco de ser a última palavra, no
entanto, tentaremos colaborar nestes conceitos importantes. Partiremos, inicialmente, do princípio da imortalidade da alma, uma vez que não se pode falar de céus e inferno sem partir da aceitação prévia da existência do espírito e de sua continuidade após vida física no corpo.

A busca pela imortalidade da alma na história, tem sua origem desde a antiga Mesopotâmia com Gilgamesh e consubstancia-se na civilização egípcia. Os egípcios foram os primeiros a defender, a ideia da imortalidade do homem, embora de uma forma ainda primitiva e rudimentar. O julgamento final, na
concepção egípcia, está bem retratado na lendária história de osiris, isis e horus, responsáveis pelo julgamento dos mortos.

As pirâmides representavam a certeza de uma continuidade da existência após a morte física. Ali, os faraós eram enterrados com todo o seu séquito que, segundo a crença, o serviria depois do despertar no mundo espiritual ou dos mortos. Este costume parece ter legado, ao ocidente, o princípio da
ressurreição física do homem. Temos a impressão, baseado na história, que os conceitos existentes no livro de Daniel 12:2 e Ezequiel 37 tentaram reforçar o entendimento primitivo da Mesopotâmia e do Egito com relação à ressurreição.

O VELHO TESTAMENTO

O Pentateuco de Moisés trouxe ensinamentos neste sentido, especificamente iniciados e contidos no livro do Gênesis, que nos auxiliam a entender melhor este conceito. Iniciaremos nossa análise com o processo da criação do homem no Gênesis 2:7. Consta no texto original hebraico, Moisés apresentando três palavras importantes e básicas, que nos ajudam a entender e diferenciar cada sentido. Estas palavras são: Ruach (Espírito), Neshamá (sopro) e Nefesh chaiá (vida física ou alma vivente).

No texto original, Moisés nos informa que Deus toma do seu Espírito (Ruach) e sopra no homem um Nishamat Chaim (sopro de vidas) e o homem se torna nefesh Chaiá (ser vivente). Aqui ressaltamos que, no livro do Gênesis, o animal é conceituado como um nefesh chaiá (ser vivente) e isto faz com que muitas correntes cristãs ocidentais confundam a vida física do animal com o homem. Neste conceito, o animal não recebe o nishamat Chaim (sopro de vidas), por isso é chamado apenas de nefesh chaiá e é isto que o diferencia do homem.

O NESHAMÁ é imortal e criado para muitas existências, por isso é que os hebreus das correntes cabalistas entendem este princípio com o nome de GUILGUL NESHAMOT (rodas da alma) e os gregos o chamam de METEMPSICOSE. Allan Kardec traz a codificação da Doutrina Espírita e chama este princípio de REEENCARNAÇÃO. Assim, na concepção judaica o nefesh chaiá morre, vira pó (tu és pó e ao pó voltarás, Gn. 3:19 e Ecl. 12:7), mas o NESHAMÁ, a centelha divina, permanece imortal e volta a Deus para ser julgado e encaminhado para futuras experiências em outro nefesh chaiá ou vida física.

GAN ÉDEN ou CÉUS

A palavra céus, na língua hebraica, só existe no plural e chama-se SHAMAIM, (CÉUS) e no conceito do Gênesis é o local de onde vem a chuva. Não possui significado de região ou local espiritual para onde vão os que morrem. Significa um teto luminoso, que retém as águas de cima. Deus chama o firmamento ou Céus de ráquia, em hebraico, devido a sua forma de uma taça emborcada sobre nossas cabeças e onde estão retidas as águas que caem na forma de chuva. (Gn. 1:8)

O Gan Éden, como Paraiso, é o lugar onde os justos colhem todo o bem que fizeram em vida. Alguns midrashim (estudos) do Talmud apresentam o Gan Éden como tendo cinco ou sete câmaras reservadas às várias categorias de homens virtuosos. Descreve-se ainda uma série de fatos curiosos e materiais envolvendo a chegada do homem no Gan Éden. Outros mestres rabinos, mais conscienciosos, desencorajaram estas especulações materiais e, dois séculos mais tarde, RAV, a mais importante autoridade religiosa do judaísmo Babilônico, declarou que não podia haver a menor semelhança entre a vida terrena e a vida no Gan Éden.

Maimônides, o grande sábio judeu espanhol do século XII, falava que acreditar nestas lendas materiais é agir como um garoto de escola que espera ganhar nozes e balas como recompensa por haver feito suas lições.

Afirmava ainda que, quando um homem morre, ele não pode levar consigo nem ouro, nem a distinção e nem o seu poder terreno. Concluía afirmando que só o estudo da Torá e uma vida cheia de boas ações, como uma “romã cheia de sementes”, sobrevivem ao túmulo para proporcionar felicidade ao homem.

O SHEOL OU GUEHINOM OU GEENA

A palavra SHEOl, em hebraico, significa, originalmente, inferno, abismo, sepulcro ou ainda, tumba. Aparece na Torá, pela primeira vez, no livro do  euteronômio 32:22, no cântico de Moisés. E Moisés assim se expressa: “O fogo da minha ira está ardendo e vai queimar até o mais fundo do SHEOL”.
O pensamento hebraico em torno do Sheol ou hades (dos gregos), ou inferno (dos ocidentais) passou com o tempo a dividir o sheol em compartimentos para os bons e para os maus.

A palavra Guehinom aparece como geena, inferno ou purgatório. A etimologia da palavra aparece como sendo originada da palavra gái, em hebraico que significa vale profundo. Outra conjectura é de que se refere ao nome de um local ao sul de Jerusalém, ao lado do campo de sangue ou aceldama, terreno comprado por Judas depois de entregar Jesus. Neste local, na antiguidade, os canaanitas sacrificavam seus filhos ao deus moloch. Ali era depositado todo o lixo da cidade. As pessoas ateavam fogo e o lixo queimava indefinidamente trazendo a ideia de um fogo eterno, adotado depois como símbolo de um local de tormentas eternas.

A palavra portuguesa inferno vem do termo latino infernus, que significa “o que está abaixo”, “inferior”, “subterrâneo”. De acordo com as mitologias gregas e latina, o hades e o inferno referiam-se a alegadas prisões subterrâneas, onde as almas ficariam encerradas após a morte física.

A crença popular era de que as almas dos pecadores malvados estavam condenadas a viver na escuridão eterna e no terror do guehinom, que só era iluminado pelos fogos eternos, que incendiavam e queimavam o lugar.

Esta concepção foi mudando com o passar do tempo e a escola de Hilel apresentava uma concepção mais humana, quanto a sorte dos condenados ao Guehinom. Seus conceitos afirmavam que sendo Deus bondoso e justo, não permitiria um sofrimento eterno no Guehinom, pois, depois de purificada toda a raça humana, o Guehinom deixaria de existir. Isto está de acordo com David que fala em seus salmos que Deus não deixaria sua alma no Sheol (Salmos 16:9 e 10; 30:4; 36:6-8; 49:15 e 16; 71:20; 86:12 e 13).

Com o passar do tempo, estes analistas chegaram a conclusão que o Guehinom e o Gan Éden existem no homem e é feito somente pelo homem. Segundo AUSUBEL, Ben Azzai percebeu que uma consequência lógica se origina de toda ação humana, seja boa ou má, e que naquela ação está a recompensa ou o castigo para quem a comete.

O NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento, o significado de Céus como mundo espiritual foi apresentado por João, o Batista, que aparece no deserto da Judeia afirmando que o Reino dos Céus está próximo. Em Mateus 3:2 João convoca as pessoas para uma reforma íntima, pois segundo ele, o Reino dos Céus está próximo. Poderíamos até interpretar que Reino dos Céus significava a presença de Jesus. Mas não é isto que ocorre com a sua chegada.

Jesus chega e reforça o conceito apresentado por João, quando afirmando lá na Galileia, no início do Sermão do Monte (Mt 5:3), que o Reino dos Céus é para os humilhados de Espírito. Vemos assim, um novo conceito para a palavra Céus.

Na parábola do Rico e Lázaro, em Lucas 16:20-31, Jesus retrata de uma forma didática a existência de uma colheita pessoal e intransferível no mundo vindouro do povo judeu, ou Olam Habá, ou mundo espiritual, ou Reino dos Céus para cada um de nós. Encontramos os mesmos conceitos em Mateus 16:27 e em João 5:28 e 29.

O Novo Testamento também incorporou os conceitos já existentes desde o passado, com relação a palavra Inferno, Sheol ou Hades, precedentes nas doutrinas já existentes. Podemos observar estes conceitos empregados na I carta de Pedro 3:18-20 e 4:6 e de Paulo aos Efésios 4:7-13.

Em consequência disso, há a incorporação, no Novo Testamento, tanto do desespero, quanto da esperança para o caso dos perdidos, com base em fontes mais antigas no tocante à doutrina do julgamento.

No entanto, muitos teólogos, sobretudo das igrejas ocidentais católicas e protestantes, têm preferido ensinar o aspecto da desesperança, deixando de lado o aspecto da esperança. A descida de Cristo ao hades representa a esperança para todos. Ninguém ficará de fora da sua proteção e do seu ensinamento libertador.

“Não é da vontade de vosso Pai, que está nos Céus, que um destes pequeninos se perca.” Mateus 18:14.

“Tenho ainda outras ovelhas, que não são deste redil: devo conduzi-las também; elas ouvirão minha voz; então, haverá um só rebanho e um só pastor”. João 10:16.

O que um estudioso acredita sobre a natureza do juízo divino depende, em muito, da denominação cristã ou não cristã em que ele foi criado e da tradução que recebe do texto original. Por isso, que muitos encontram condenação eterna no texto de João capítulo 5:28 e 29. Ali, Jesus fala de um julgamento pessoal e intransferível, com condições e chances de um recomeço ou nova chance para quem errou e não de uma condenação eterna.
E, assim, a igreja cristã não possui uma doutrina homogênea em muitos pontos, inclusive neste.

É lamentável que muitos teólogos achem normal que muitas almas fiquem sofrendo eternamente no inferno, procurando se convencer de que este ensino faz parte da justiça de Deus. Pensando, e agindo assim, acabam ignorando a justiça